O ar que se bebe nas entrelinhas
13 junho 2026
De manhã, o ar já não se respira; pesa. O sol matinal, com uma pressa desmedida de agosto em pleno junho, instala-se nas ruas de Braga como um manto invisível e sufocante. Nestes dias de canícula, a cidade parece desacelerar, rendida ao torpor do calor, e a única trégua possível é aquela que se conquista em movimento. Montado na Honda Vision, o vento do andamento é um pequeno milagre diário. Não é propriamente fresco, mas corta a estagnação. Transforma o trajeto mais banal numa travessia contemplativa, um espaço de tempo suspenso onde os pensamentos ganham a liberdade que o asfalto quente tenta roubar. É a bordo desta scooter que tenho desenhado o mapa de um ano atípico. 2026 instalou-se em mim como uma primavera cultural tardia, mas avassaladora. Nunca li tanto. Nunca escrevi tanto. Os meus dias têm sido uma coreografia constante entre pontos de recolha de encomendas — que abastecem uma biblioteca pessoal agora reorganizada, com uma estante nova a estrear — e as salas de teatro e de ...