O encontro primitivo

O anúncio surgiu no ecrã por mero acaso — um daqueles raros momentos em que o algoritmo serve uma utilidade fugaz. A notícia de que a livraria Centésima Página acolhia a apresentação do segundo volume da revista Primitiva ecoou em mim com a urgência de uma sirene de ataque aéreo. Não podia perder. O relógio, porém, impunha uma disciplina militar: trinta minutos exatos entre o largar das ferramentas na fábrica, a fuga para casa para um banho rápido que me devolvesse a dignidade pública, e a chegada ao centro de Braga.
À saída do pavilhão, rodar o punho do acelerador foi o primeiro ato de libertação. O vento na cara funcionou como o prelúdio da água tépida que, minutos depois, me acordaria o corpo em casa. Um circuito de desinfeção física e mental. De novo na estrada, com o tempo suspenso e o céu de feição, mergulhei no pavé empedrado. A vibração irregular das rodas no chão da cidade tem essa virtude mecânica: agita o interior, peneira a alma, filtra o que é excesso.
À minha frente, o trânsito adensava-se. Inicialmente, o fluxo humano corria em sentido oposto, uma espécie de evacuação coletiva da cidade, como se o final do turno fosse uma catástrofe da qual todos tentavam fugir. Depois, o sentido inverteu-se. É nestes minutos contados que os anos acumulados sobre duas rodas se transformam em geometria pura. A mota, leve e esguia, move-se com a precisão de um bisturi entre as filas de carros imobilizados. Não procuro a pressa, mas precisava daquele luxo antigo: chegar com tempo para estacionar com calma e adotar a minha postura favorita. A de um radar urbano, parado no passeio, a fotografar com o olhar os rostos, as cores e os cheiros à porta do comércio tradicional.
Entrar no corredor da Centésima Página foi um exercício de paciência. O espaço estava cheio, denso de gente. Noutra altura, o obstáculo ter-me-ia desalentado; ali, senti uma felicidade puramente alheia. Ver a multidão disputar o espaço por uma publicação independente e impressa trouxe-me um conforto familiar. O nome é magnífico: Primitiva. Um vislumbre no ecrã de projeção, que exibia uma imagem de textura telúrica sob o título da revista, confirmava a sua identidade. O grafismo, soberbo; a profundidade das histórias, imersiva. Era impossível não desenhar pontes invisíveis com aquilo que idealizo para a Pendura. Quase parecem parentes da mesma linhagem.
Olhando em redor, percebi que a autenticidade daquela revista não vinha do facto de ser feita por profissionais, jornalistas ou fotógrafos. Vinha de ser um grito editorial, uma rara revolução estética num país tantas vezes amorfo.
Alguém me abriu caminho no corredor, deixando-me numa posição privilegiada, alinhado com a equipa que dava a cara pelo projeto. Fiquei a observar o homem de t-shirt branca, o diretor Luís Octávio Costa, de pé com o microfone, e a mulher de cabelo curto e grisalho ao seu lado, a editora Luísa Pinto, cujas palavras cheias de entusiasmo ancoravam a sala. Ao lado deles, de azul e de óculos, o explorador Rui Barbosa Batista ia entrando na conversa, enquanto, em primeiro plano, de verde, o Zé Pedro partilhava a sua experiência no Burquina Fasso. À nossa volta, o público, como um mar de rostos atentos e silenciosos, comprimia-se entre as estantes que transbordavam de livros. Sentia-me parte daquela revista. E, na verdade, somos. Publicações independentes não nascem para criar distância; nascem para a imersão. Quem lê e apoia estas páginas não figura na ficha técnica oficial, mas é quem valida a sua existência. Ter aquele volume nítido e texturado nas mãos — uma cópia que repousava na estante ao meu lado — é viajar por caminhos não convencionais, diluindo-nos em biografias alheias.
Um vislumbre no relógio devolveu-me à realidade. Andar regido pelas horas é a maior das ditaduras modernas. Os meus esperavam-me antes que a rotina do dia seguinte reclamasse o meu corpo. Retirei-me de lado, cruzando-me com mais rostos curiosos que ainda tentavam entrar.
Caminhei de volta à mota com o espírito pacificado. Se haverá gente no futuro para uma apresentação da Pendura, ou se alguma vez a farei, de pouco importa agora. No trajeto de regresso, o corpo conduziu no automatismo perfeito da experiência, enquanto a mente permanecia retida naquela livraria, povoada por fotografias de lugares distantes e pela certeza de que o papel ainda é o melhor refúgio para quem recusa esquecer-se de olhar.