Tão longe, tão perto: um trilho de resistência

16 abril 2026
Fotografia horizontal em plano médio na Rua do Raio, em Braga. Em primeiro plano, sobre o banco de uma scooter Honda Vision vermelha, destacam-se dois livros de Fernando Alves: Sinais e Onde Vais, por Esse Trilho, com o Canto da Toutinegra. Ao fundo, o reflexo da fachada envidraçada da Livraria Bertrand e a arquitetura barroca em tons de azul do Palácio do Raio sob um céu limpo de fim de tarde.

Faço-me à estrada com a noção de que este ampliar da luz solar é um extra diário de vida devolvido depois do inverno nos ter apertado o horizonte. A Vision, ainda marcada pela chuva dos últimos dias, avança pelo trânsito caótico da cidade. Há quase uma insolência neste desfrutar da brisa do fim de tarde sob um céu limpo. Vejo-os — os automobilistas — irritados, conformados, presos nas filas intermináveis. Lá passa uma scooter. Depois outra. E eu, mais a Vision. A solução está-lhes diante dos olhos, mas insistem na redoma de aço, cada um sozinho, como se a solidão motorizada fosse um direito adquirido — e inquestionável. Talvez a irritabilidade no asfalto seja apenas mais uma normalidade portuguesa: “tem de ser”.

A polícia, também ela enredada no trânsito da Rua do Matadouro, vê-me passar. A pressa, para eles, é um conceito relativo enquanto o turno ainda dura. Já na Rua Dom Afonso Henriques, sou obrigado a abrandar. À minha frente, uma altíssima cilindrada, cujo condutor saboreava o paralelo e o sol nas fachadas, obriga os modestos 110 cc da Vision a acompanharem-lhe o ritmo. De repente, naquela rua, os automóveis deixaram de existir. Somos apenas dois — uma baixa e uma alta cilindrada — a ocupar uma rua inteira, como se alguém tivesse reservado aquele corredor trepidante só para nós.

Deixo-me levar pela BMW, numa mansidão inesperada. Contemplo o movimento das ruas, o Largo Carlos Amarante a abrir-se como um palco, e sinto que partilhei um instante com um desconhecido que domava uma manada de cavalos. A descida pela Rua de São Lázaro faz-se numa cantoria entre dois escapes que, se quisessem, criariam trânsito só pela música. Na Rua do Raio, deixo-o seguir e encosto em frente à livraria.

O motor da Vision cala-se, mas dentro de mim continua a ecoar uma cadência muito própria. É a voz de Fernando Alves — essa voz que não se imita, apenas se escuta por dentro. Escrever com essa voz na cabeça é um exercício de limpeza do olhar: obriga-nos a abrandar, a escolher a palavra não pela complexidade, mas pela capacidade de criar poeira, humidade ou luz. É um compasso que transforma o ruído urbano em substância narrativa.

Ao balcão da livraria, cumpro o meu ritual de resistência. Podia ter encomendado estes livros para a comodidade impessoal da soleira da porta, mas recusei. Escolhi o trajeto, o paralelo, o encontro. É do cheiro a papel e do pó das estantes que os livros devem sair para as minhas mãos. Ao fazê-lo, honro o espírito do slow reading e do slow journalism que Fernando Alves representa — essa arte de “fotografar com o som”, de criar raízes através da narrativa, longe das pressas algorítmicas.

Nas minhas mãos, agora, habitam duas geografias essenciais. Em Sinais, reencontrarei a mestria da síntese, o detalhe quotidiano tornado universal. Em Onde Vais, por Esse Trilho, com o Canto da Toutinegra?, espera-me a imersão na geografia humana, o rasto de encontros que celebram a resistência do interior. São títulos que funcionam como bússolas — os meus próprios Tão Longe, Tão Perto e Os Dias que Correm. O livro que estava perto exigiu o longe de um trajeto deliberado, criando uma pausa necessária na correria dos dias. É a geometria perfeita entre a máquina e a poesia.

Descolo-me do passeio com o deslumbre de mais duas motas. Somos tão poucos no meio de tantos carros. No semáforo, que demorou tempo a menos no vermelho, páro ao lado de uma Honda ADV com dupla tripulação. Olham para mim. Talvez me tenha chegado demasiado perto; talvez, por um instante, tenhamos sido família sem o dizer. Lá vamos nós — eu e a Vision — com nova companhia pela Avenida da Liberdade abaixo, desafiando a irritabilidade de quem, sintonizado no FM dentro da redoma, nada está a ouvir.

Mais filas intermináveis. Chega a ser uma humilhação passar por tanta gente em tão pouco tempo. Lá vai uma Vespa pela Avenida Imaculada Conceição. É fácil contar quantos, como eu, optam por circular assim. Já na Rua Cidade do Porto, sinto uma presença que se cola a mim: uma Honda PCX branca que aproveita o caminho que a minha Vision vermelha abre. Quando o trânsito começa a espaçar, surgem condutores que generosamente nos dão passagem. A felicidade pode ser tão óbvia. A PCX abandona-me já dentro do bairro. E, no entanto, parece que tive companhia em todo o trajeto, apesar de ir sozinho — ou talvez não.

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