A scooter no dia-a-dia japonês

Há muitas formas de conhecer o Japão.
Pode-se admirar os templos e os santuários, pode-se fitar os neons das grandes cidades, pode-se apreciar os comboios que chegam com a sua pontualidade sobre-humana. Mas, se quisermos perceber o país como ele realmente funciona – no seu ritmo mais humano – talvez seja melhor descer um pouco a escala. Sair dos locais turísticos. Descer dos arranha-céus e aproximarmo-nos do chão.
Ou melhor: da estrada.
Especialmente desde que me mudei da cidade para uma zona mais calma, longe da grande Tóquio ou de grandes centros urbanos, comecei a reparar na presença constante de pequenas scooters, como a Honda Dio¹. Discretas, mas absolutamente omnipresentes. Não chamam a atenção, não fazem questão de impressionar – e talvez por isso digam tanto sobre o Japão. No Japão, a scooter é, acima de tudo, uma ferramenta. Um objeto funcional, pensado para encaixar na vida quotidiana com o mínimo de fricção possível.
Vê-se estas scooters estacionadas em frente a casas pequenas, ao lado de bicicletas, muitas vezes com uma cesta à frente – não para estilo, mas para utilidade. Vê-se em frente a pequenas lojas locais, com o motor ainda quente de uma deslocação rápida. Vê-se conduzida por estudantes, trabalhadores, idosos. Não pertence a um grupo específico. Pertence ao dia-a-dia.
Há algo profundamente japonês na relação com as scooters. A forma como são usadas, cuidadas, integradas. Raramente se vê uma scooter mal tratada. Mesmo os modelos mais antigos mantêm a sua dignidade funcional. Num país onde o destaque não é visto muito positivamente, o mais importante está longe de ser a ostentação. O que importa é o respeito pelo que se tem, e pelo espaço que se ocupa.
Mas talvez o mais interessante seja aquilo que elas revelam sobre a mobilidade no Japão.
Apesar da fama dos transportes públicos, a verdade é que há uma camada invisível de deslocações locais – pequenas distâncias, rotinas diárias, idas rápidas ao supermercado, ao infantário, à farmácia. É aí que a Honda Dio brilha. Não substitui o comboio. Complementa-o.

É comum ver casas que possuem tanto carro como scooter. Cada meio de transporte é utilizado para fins diferentes, e com estados de espírito diferentes. Se há quem apanhe o autocarro até à estação de comboio mais próxima para ir trabalhar, também há quem prefira a deslocação de bicicleta ou de scooter. São inúmeros os parques de estacionamento exclusivos para bicicletas e motas junto às estações, muitos dos quais requerem uma pré-reserva, dada a popularidade dos mesmos. Parques térreos ao ar livre, parques fechados em edifícios de múltiplos andares para aproveitar o espaço. E num país onde o espaço é sagrado, ter uma scooter tem inúmeras vantagens quando comparado com um carro, como o local para estacionar a mesma, ou os custos a ela associados.
Ao longo dos meus anos no Japão, comecei a ver estas scooters quase como extensões das pessoas: fazem parte do sistema que mantém o dia-a-dia a funcionar sem esforço aparente.
Talvez seja por isso que passam despercebidas.
Porque, no fundo, quando alguma coisa funciona mesmo bem, deixamos de reparar nela.
E estas scooters, aqui representadas pela Honda Dio, são exactamente isso: peças discretas, eficientes e quase invisíveis de um Japão que raramente aparece nas fotografias, mas que sustenta tudo o resto.
¹ A Honda Dio é o nome dado ao modelo da Honda Vision para o mercado japonês.
Pela primeira vez convidei um autor para escrever uma crónica para o meu blogue. Esse autor é o André Moreira. Com dois livros publicados da coleção 3007 Dias no Japão, o André escreveu esta crónica com direito a uma versão em japonês.
André Moreira
Com raízes na Encarnação, concelho de Mafra, cedo demonstrou interesse pela cultura japonesa. Terminada a sua licenciatura em Engenharia Informática e de Computadores, decide embarcar na aventura da sua vida rumo ao Japão. Após estudar a língua e fazer um curso de Computação Gráfica enquanto prosseguia com a sua paixão pela música numa orquestra local, avança para o mercado de trabalho japonês na área dos videojogos, onde trabalha até hoje.
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