O brio dos eletricistas e a cegueira dos zombies

O pequeno-almoço ainda ecoava na memória quando coloquei o motor da minha scooter a trabalhar. Não era uma viagem de necessidade, mas de verificação — um brio de inspetor que me levou a seguir pelo asfalto fresco da manhã com a prontidão de quem sabe que há uma história à espera.
Fui ver o que ninguém viu.
Recordo o cenário: um poste cego, um esqueleto metálico decapitado que servia apenas de cabide para promessas políticas e fita de isolamento desbotada. Foram dois anos de inércia municipal. Mas bastou um formulário digital, um SMS e seis dias de expediente para que a E‑REDES fizesse o que a burocracia local esqueceu no fundo de uma gaveta.
Cheguei ao local e encontrei não só o poste reparado, mas rejuvenescido. A luminária antiga, derretida e inútil, foi substituída por uma moderna, em LED. E não ficaram por aí: os outros dois candeeiros da mesma linha receberam o mesmo tratamento, como se a rua tivesse finalmente recuperado a coerência que lhe faltava. Um exemplo de brio técnico que humilha a desídia política anterior.
Mas o que mais me espanta nesta curta jornada não é a eficiência de quem reparou; é a alienação de quem habita. Perguntei em casa, pedi a quem lá passa todos os dias que olhasse para cima. A resposta foi um encolher de ombros coletivo, um “esqueci‑me”, um “não reparei”.
Vivemos rodeados de zombies urbanos. Pessoas que caminham em completa escuridão interior, alheias ao cenário que as molda, como se o mundo fosse um pano de fundo desfocado num ecrã de telemóvel. O poste podia ter sido substituído por uma árvore de Natal ou por um obelisco egípcio, e a cegueira voluntária teria sido a mesma.
A minha Vision vermelha, estacionada agora sob a luz nova (ainda que desligada pelo sol da manhã), marca apenas o lugar habitual onde a deixo sempre que venho aqui. É um ponto fixo na paisagem. E talvez por isso sublinhe ainda mais o contraste entre o que permanece e o que ninguém vê.
Fui‑me embora com o vento fresco no rosto e uma satisfação rara. No meio da distração generalizada, houve alguém do outro lado de uma linha de suporte que me leu. Alguém que veio, subiu a escada e trocou o vidro partido pela esperança de uma noite iluminada.
Entre o brilho novo do LED e o cinzento opaco do quotidiano, a rua estará finalmente pronta para quem continua a preferir nada querer ver.