A sebe que cresceu para lá do telhado

21 abril 2026
Fotografia horizontal de uma scooter Honda Vision vermelha estacionada num piso de calçada portuguesa. Ao fundo, uma casa rústica de blocos de pedra cinzenta está parcialmente escondida por uma sebe muito alta e densa, com flores secas em tons de castanho e ocre, que ultrapassa a altura do telhado. Um poste de eletricidade em cimento ergue-se junto à casa, sob um céu azul e limpo.

No dia anterior tínhamos estado no Theatro Circo, rendidos à voz de Elisabete Matos e ao piano de Maciej Pikulski. Talvez tenha sido a naturalidade dela — não apenas a que se ouve, mas a que vem de ter nascido nas Caldas das Taipas — que nos empurrou, no dia seguinte, para uma viagem de regresso. Fomos de mota às Taipas por causa dessa mesma naturalidade, como se a terra dela nos chamasse também a nós.

Seguimos pela tarde, a minha mulher à pendura, cada vez mais habituada ao balanço das duas rodas, e ainda assim surpreendendo-me por ter sido ela a sugerir a viagem. Ao deixarmos Braga pela Morreira, a N101 recebeu-nos com a sombra cerrada do arvoredo, um corredor vegetal onde o sol só entrava por frestas. A descida prolongada parecia preparar-nos para o reencontro. À passagem por Sande (São Martinho), o cheiro a lenha de uma serração devolveu-me memórias que julgava adormecidas. Já no centro das Taipas, as esplanadas cheias confirmavam que o sol tinha feito a sua parte.

A viagem, feita ao ritmo que ela me pedia — devagar, para ver melhor — devolveu-nos uma cumplicidade antiga. Há um olhar diferente quando se viaja fora da redoma metálica, quando o corpo sente o ar e a estrada deixa de ser apenas um meio para se tornar presença.

Entrámos pelos portões da quinta onde já vivemos. A natureza, entretanto, tomara conta do lugar. A sebe que a minha mulher plantou, há anos, ultrapassava agora o telhado e engolira a entrada da casa. Era como se o tempo tivesse crescido em silêncio, sem pedir licença. A nossa antiga vizinha recebeu-nos com uma surpresa que não se finge. Falou-nos das pequenas batalhas do quotidiano — o telemóvel que insiste em complicar, o comando da televisão que se perde nos seus próprios botões — e mostrou-nos, com um orgulho discreto, os vasos e as plantas que a minha mulher lhe deixou. Ali, naquele gesto de cuidado preservado, senti que ainda habitávamos perto dela.

A conversa correu com a naturalidade de quem partilha um passado comum. Mas a nostalgia instalou-se devagar, como quem sabe que não deve fazer barulho. Despedimo-nos com a serenidade possível e voltámos à estrada.

No centro das Taipas, detive-me nas fachadas de pedra, no metal pintado a verde, branco e azul das míticas cadeiras portuguesas da esplanada do antigo mercado, e no piso irregular que se sente no corpo quando se avança devagar. No jardim, uma feira de velharias contornava o coreto, como se o tempo ali tivesse sempre mais do que uma camada.

À saída, fomos engolidos por um grupo de motas de alta cilindrada, matrículas espanholas, um comboio ruidoso que nos ultrapassava com a pressa de quem mede a estrada em potência. Mas, ao chegar a Balazar, a inclinação desapareceu e a Vision manteve o seu lugar, firme, acompanhando-os sem esforço. Senti a minha mulher a divertir-se com essa inesperada integração, como se por momentos fizéssemos parte de uma coreografia improvisada. Em Esporões, o comboio seguiu o seu caminho, e nós seguimos o nosso.

A viagem ficou-nos a ressoar. Não apenas pelo reencontro com a quinta, nem pela vizinha que guarda plantas como quem guarda memórias, mas pelo que se insinuou no silêncio entre nós: a descoberta de que as viagens a dois, feitas devagar, podem ser um lugar de regresso e de futuro ao mesmo tempo.

E talvez tenha sido isso que a voz da Elisabete Matos nos deixou na véspera — a ideia de que a naturalidade também pode ser um destino.

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