A sebe que cresceu para lá do telhado

No dia anterior tínhamos estado no Theatro Circo, rendidos à voz de Elisabete Matos e ao piano de Maciej Pikulski. Talvez tenha sido a naturalidade dela — não apenas a que se ouve, mas a que vem de ter nascido nas Caldas das Taipas — que nos empurrou, no dia seguinte, para uma viagem de regresso. Fomos de mota às Taipas por causa dessa mesma naturalidade, como se a terra dela nos chamasse também a nós.
Seguimos pela tarde, a minha mulher à pendura, cada vez mais habituada ao balanço das duas rodas, e ainda assim surpreendendo-me por ter sido ela a sugerir a viagem. Ao deixarmos Braga pela Morreira, a N101 recebeu-nos com a sombra cerrada do arvoredo, um corredor vegetal onde o sol só entrava por frestas. A descida prolongada parecia preparar-nos para o reencontro. À passagem por Sande (São Martinho), o cheiro a lenha de uma serração devolveu-me memórias que julgava adormecidas. Já no centro das Taipas, as esplanadas cheias confirmavam que o sol tinha feito a sua parte.
A viagem, feita ao ritmo que ela me pedia — devagar, para ver melhor — devolveu-nos uma cumplicidade antiga. Há um olhar diferente quando se viaja fora da redoma metálica, quando o corpo sente o ar e a estrada deixa de ser apenas um meio para se tornar presença.
Entrámos pelos portões da quinta onde já vivemos. A natureza, entretanto, tomara conta do lugar. A sebe que a minha mulher plantou, há anos, ultrapassava agora o telhado e engolira a entrada da casa. Era como se o tempo tivesse crescido em silêncio, sem pedir licença. A nossa antiga vizinha recebeu-nos com uma surpresa que não se finge. Falou-nos das pequenas batalhas do quotidiano — o telemóvel que insiste em complicar, o comando da televisão que se perde nos seus próprios botões — e mostrou-nos, com um orgulho discreto, os vasos e as plantas que a minha mulher lhe deixou. Ali, naquele gesto de cuidado preservado, senti que ainda habitávamos perto dela.
A conversa correu com a naturalidade de quem partilha um passado comum. Mas a nostalgia instalou-se devagar, como quem sabe que não deve fazer barulho. Despedimo-nos com a serenidade possível e voltámos à estrada.
No centro das Taipas, detive-me nas fachadas de pedra, no metal pintado a verde, branco e azul das míticas cadeiras portuguesas da esplanada do antigo mercado, e no piso irregular que se sente no corpo quando se avança devagar. No jardim, uma feira de velharias contornava o coreto, como se o tempo ali tivesse sempre mais do que uma camada.
À saída, fomos engolidos por um grupo de motas de alta cilindrada, matrículas espanholas, um comboio ruidoso que nos ultrapassava com a pressa de quem mede a estrada em potência. Mas, ao chegar a Balazar, a inclinação desapareceu e a Vision manteve o seu lugar, firme, acompanhando-os sem esforço. Senti a minha mulher a divertir-se com essa inesperada integração, como se por momentos fizéssemos parte de uma coreografia improvisada. Em Esporões, o comboio seguiu o seu caminho, e nós seguimos o nosso.
A viagem ficou-nos a ressoar. Não apenas pelo reencontro com a quinta, nem pela vizinha que guarda plantas como quem guarda memórias, mas pelo que se insinuou no silêncio entre nós: a descoberta de que as viagens a dois, feitas devagar, podem ser um lugar de regresso e de futuro ao mesmo tempo.
E talvez tenha sido isso que a voz da Elisabete Matos nos deixou na véspera — a ideia de que a naturalidade também pode ser um destino.