O homem que insuflava os braços

A saída da livraria fazia-se naquela atmosfera suspensa e descomprometida que só as manhãs de sábado sabem oferecer. O ar trazia ainda o frescor limpo do início do dia e os livros acrescentavam um peso bom, reconfortante. Em frente a mim, a Vision permanecia estacionada, o seu vermelho vivo a ensaiar um diálogo cromático imprevisto com a fachada do Palácio do Raio. Dei dois passos, movi-a uns metros para o centro do cenário e decidi simplesmente demorar-me ali, a olhar.
O Palácio do Raio é uma daquelas excentricidades que provam que Braga já teve mais tempo para a beleza. Erguido em meados do século XVIII, a mando do opulento comerciante João Duarte de Faria, carrega o traço genial de André Soares, o mestre que moldou o barroco e o rococó na cidade. Olhar para aquela fachada é ler uma partitura esculpida em granito: as janelas recortadas com um vigor quase teatral, as volutas que parecem mover-se sob o céu azul e, claro, o azul profundo dos azulejos oitocentistas que revestem a estrutura, refletindo a luz da manhã como se o edifício estivesse imerso na água. A sobriedade geométrica da scooter, ali plantada perante tanta sumptuosidade palaciana, parecia o manifesto perfeito para a nossa filosofia de leitura lenta.
Ainda estava a perder-me nos pormenores da cantaria, quando a harmonia de pedra e azulejo foi estilhaçada. Nas minhas costas, uma buzina enraivecida ecoou pela rua, seca e agressiva.
Uma senhora, distraída por um segundo que fosse, não terá arrancado a tempo assim que o semáforo abriu. Atrás dela, o condutor de um carro cinzento, fechado na sua redoma climatizada, gesticulava violentamente. Sacudia os braços no ar com o desespero mecânico de um daqueles bonecos insufláveis que habitam as inaugurações de stands de automóveis. O contágio do stress urbano é instantâneo: num ápice, a senhora absorveu a fúria do espelho retrovisor e adotou a mesma linguagem corporal, com as órbitas oculares prestes a saltar-lhe das cavidades enquanto gritava algo impercetível através do vidro fechado. Uma coreografia do absurdo.
A poucos metros dali, um senhor idoso caminhava vagarosamente na minha direção. Ao aperceber-se da minha postura descontraída, encostado à mota apenas a assistir ao espetáculo, parou a meu lado. Olhou o trânsito, olhou-me nos olhos e desabafou com a sabedoria de quem já viu muitas manhãs de sábado passarem:
— Hoje em dia já não há paciência nenhuma. Andam sempre cheios de pressa.
Consenti com a cabeça. E ali ficámos os dois, temporariamente imóveis perante a histeria alheia. Ele, com a autoridade da idade avançada que lhe concede o direito sagrado ao arrastamento dos dias; eu, que recusava categoricamente deixar que aquele ruído transformasse o meu sábado num dia de expediente.
O semáforo voltou a fechar, a abrir, e a marcha dos carros finalmente retomou-se. Foi então que a ironia da vida urbana se revelou em todo o seu esplendor: o senhor impaciente, o mestre do desespero elétrico, piscou o pisca e virou à esquerda para entrar num parque de estacionamento subterrâneo. A escassos 45 metros do local do crime.
O meu inesperado companheiro de passeio soltou um sorriso de canto, apontou com o queixo e atirou para o ar:
— Está a ver qual era a pressa dele?
A despedida foi um aceno silencioso. O homem continuou o seu caminho, subindo vagarosamente a Rua de São Lázaro, saboreando cada passo como quem lê um bom livro.
A Rua do Raio recuperou o seu fluxo tranquilo. Com a poeira assente e o silêncio devolvido ao granito de André Soares, liguei o motor da Vision. O murmúrio familiar da scooter fez-se ouvir, a marcha iniciou-se suave e, num gesto de pura cumplicidade urbana, nem mesmo o semáforo seguinte quis o vermelho comigo, como se a cidade me desse passagem, validando o meu ritmo lento.