O aroma das horas vazias

18 maio 2026
Visão de ângulo baixo de uma scooter Honda Vision vermelha estacionada em Braga com um capacete preto e azul sobre o assento. Ao fundo, destaca-se a fachada branca e de pedra da Associação dos Reformados de São Victor com as traseiras da igreja da Senhora-a-Branca sob um céu azul limpo e brilhante.

Há manhãs em que a cidade não é mais do que um cenário em tons de cinza e branco, à espera que alguém lhe sopre o primeiro sinal de vida. O pretexto era mundano, quase urgente: a escassez de café em casa ameaçava o desassossego dos dias. Mas, na verdade, o que me move ao início de um fim de semana é a cadência delicada dos rituais. Partilhar o pequeno-almoço com a minha mulher é um dos meus favoritos. Ela tem o sábado povoado de clientes; eu tenho o tempo a meu favor. Despedimo-nos na penumbra cúmplice de uma pastelaria matinal e, a partir dali, a cidade passa a ser um caderno em branco.

Coloco a Vision em andamento. No painel, o mostrador do combustível repousa numa barra de tranquilidade. O céu, de um azul lavado e sem mácula, estende-se sobre Braga como uma tela geométrica. O motor canta o seu sussurro mecânico habitual e a estrada, despida de trânsito, convida a uma lentidão quase cinematográfica. Descubro, com os anos, uma regra inversamente proporcional: quanto mais vazia está a rua, mais devagar escolho andar. Há uma pop-art involuntária nas texturas do asfalto, nos contornos nítidos das sombras que invadem a via, desenhando uma exposição artística e efémera que só os muito lentos conseguem aplaudir.

Na Senhora-A-Branca, o sábado ganha os primeiros contornos humanos. Assisto, de soslaio, à montagem da feirinha no jardim — estruturas de ferro e lona que desafiam o movimento aparente do sol. Contorno a igreja com a suavidade de quem não quer perturbar o fado do bairro e estaciono a scooter nas traseiras. Olho para o relógio. Coço a cabeça. Sinto-me o porteiro oficial da manhã, um homem solitário com as chaves de metal pesadas que abrem os grandes portões invisíveis da Avenida Central.

Caminho pela avenida e sinto um pico subtil de adrenalina, uma vibração que a arquitetura modernista e o urbanismo antigo sabem provocar. É o fenómeno de assistir a duas avenidas distintas no mesmo espaço físico: o silêncio estático das primeiras horas que, de repente, cedem o lugar ao burburinho elegante do comércio de rua e ao pisar apressado dos calcanhares no passeio.

Faltam dez minutos para a hora quando as portas da Negrita se abrem. Ao cruzar o umbral, sou esmagado por um aroma a café tão denso que quase se torna tátil. É uma atmosfera rica, espessa, puramente sensorial. Comento com a senhora do balcão, num meio sorriso, que se deveria pagar bilhete apenas para respirar aquele ar. Ela devolve-me um riso autêntico, daqueles que já não se fabricam em série. Pergunto-lhe se, depois de tantos anos, ainda consegue sentir aquele perfume. Confessa-me que perdeu o olfato; que o aroma agora só lhe pertence no momento exato da abertura, quando o mistério se acumulou durante a noite inteira.

O ronco mecânico do moinho interrompe a nossa filosofia de balcão. Os grãos transformam-se na moenda fina que alimentará a minha máquina de filtro — aquela que, mais do que tirar café, tem o dom de aromatizar a casa inteira, transformando as divisões num refúgio acolhedor. Saio de lá com um quilo de sobrevivência perfumada pela mão. Acondiciono o tesouro no compartimento da Vision e dou ordem de marcha.

Talhão de fachadas de edifícios antigos em Braga, destacando-se ao centro o prédio de azulejos encarnados da icónica loja de cafés A Negrita na Avenida Central. A imagem exibe uma perspetiva simétrica e vertical sob um céu azul limpo, com folhas de árvores visíveis no canto superior esquerdo.

A cidade surpreende-me com novas alterações ao trânsito. Para minha satisfação, são-me favoráveis. Deixo-me deslizar pela Rua da Restauração, faço pisca à direita para a Rua Beato Miguel de Carvalho e subo de novo a Avenida 31 de Janeiro, cortando depois para a Rua do Raio. O destino é a livraria.

Ao entrar, o espaço guarda o silêncio de uma capela secular. Uma livreira solitária observa-me a parar a meio da loja, estático, como quem tenta sintonizar uma frequência invisível. Pergunta-me, com um ar incógnito e curioso, se preciso de ajuda. Explico-lhe o meu dilema: acabo de sair do templo do café e, confrontado com o cheiro a papel e tinta dos livros, questiono-me qual das duas fragrâncias governa melhor a minha alma. Não chego a conclusão nenhuma, e esse é o verdadeiro charme da viagem.

Acolhendo a dúvida, aceito o convite para subir ao primeiro piso, um território até então inexplorado. Constato que o Outonecer de Júlio Machado Vaz já vai na sua sexta edição — o tempo voa nas capas de papel. De volta ao rés-do-chão, pergunto por revistas com um certo lamento prévio na voz. A resposta começa tímida, mas recupera o fôlego: “- Ai, essa temos! A Ler. Desculpe-me.” Percebo então que ali reside uma única revista, esquecida e orgulhosa no meio de um exército de livros. Fico a pensar na beleza desse isolamento. Quem sabe um dia não resolvo o assunto criando eu mesmo uma revista camuflada de livro, um objeto editorial de coleção para leitores lentos.

Trago comigo a novidade de Martim Sousa Tavares, Amanhã à Mesma Hora, numa edição autografada que já tinha encomendado. O formato da editora Zigurate fascina-me: livros de bolso com uma elegância acrescida, a proporção exata para se segurar com uma mão enquanto o mundo gira lá fora.

Monto a Vision. O regresso a casa faz-se com a estrada mais viva, mas a minha mente continua suspensa naquele hiato matinal. Sob o capacete, juro que ainda sinto a fragrância cruzada do café acabado de moer e das páginas frescas que escondem uma revista secreta. Chego a casa e arrumo o café no armário como quem esconde ouro num cofre. O livro novo ficará para mais tarde. Há rituais que exigem que o sol se deite primeiro.

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