O ruído das ideias paradas
Há um silêncio muito particular que se instala entre quatro paredes quando a cidade continua a mover-se lá fora. Um silêncio que cheira a papel limpo, a febre ligeira e ao isolamento imposto por um veredicto clínico colhido à pressa na ponta de um cotonete gigante. Diagnóstico fechado: amigdalite viral. O corpo estaciona, mas a mente, essa, recusa-se a desligar a ignição.
Da janela do quarto, o olhar viaja vertical até à garagem, contornando a distância para pousar na silhueta estática da Honda Vision. Não preciso de lhe tocar para saber como pulsa. Há um fenómeno de memória muscular que nos devolve o asfalto sem que precisemos de sair do sítio: fecho os olhos e oiço o ronco monocilindrico, sinto a aragem quente da tarde a cortar a monotonia do rosto, a moldar a rota pelas artérias de Braga. É uma viagem fantasma, mas perfeitamente real.
A reclusão, contudo, tem as suas próprias leis de compensação. O tempo que a doença rouba à estrada é devolvido, com juros de serenidade, à mesa de trabalho.
Nasce ali, entre chávenas de bângala quente e rascunhos espalhados, a arquitetura visual da Pendura. O projeto da revista literária que há tanto tempo pede para respirar encontra nestes dias de paragem o seu solo fértil. Organizar páginas, estruturar o design, desenhar o destino das palavras; avançar, passo a passo, com a burocracia fria mas necessária para proteger um filho que nasce do papel. Há uma ironia bonita nisto: o nome da revista, Pendura, evoca precisamente aquele lugar de cumplicidade na mota, o assento de trás que partilha a viagem sem conduzir. Mesmo ali, no âmago da criação literária, a herança das duas rodas reclama o seu espaço. O tempo agora pede pés no chão e uma paciência quase artesanal, longe da pressa algorítmica do mundo moderno.
Até que o ecrã do telefone acende. Uma notificação quebra o feitiço romântico da clausura: uma encomenda aguarda num ponto de recolha algures na cidade.
Não me movo de imediato. Deixo-me estar, saboreando a estratégia. Espero que a casa se esvazie de ruídos familiares, que o ritmo doméstico abrande, como quem aguarda o momento exato para uma fuga clandestina e perfeitamente calculada.
Quando a oportunidade se dá, o ritual é quase cinematográfico. As luvas contornam as mãos, o capacete ajusta-se e o motor, finalmente, ganha vida. Não é apenas uma deslocação utilitária; é um regresso ao mundo. O vento bate na cara com a força de um reencontro e a Vision desliza pela cidade como se fizesse parte da própria corrente do ar. O tempo, que antes se arrastava nas horas de febre, agora voa, elástico e veloz.
Foi um sopro. O espaço exato para recolher o pacote, respirar a liberdade da rua e regressar. Quando dou por mim, estou de novo recolhido no meu refúgio, com o motor a arrefecer lá em baixo. Mas a mesa de trabalho já não parece tão estreita, e as páginas da Pendura ganharam uma nova urgência. Afinal, para escrever com alma, é preciso, de vez em quando, deixar o vento entrar.