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O encontro primitivo

4 junho 2026
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O anúncio surgiu no ecrã por mero acaso — um daqueles raros momentos em que o algoritmo serve uma utilidade fugaz. A notícia de que a livraria Centésima Página acolhia a apresentação do segundo volume da revista Primitiva ecoou em mim com a urgência de uma sirene de ataque aéreo. Não podia perder. O relógio, porém, impunha uma disciplina militar: trinta minutos exatos entre o largar das ferramentas na fábrica, a fuga para casa para um banho rápido que me devolvesse a dignidade pública, e a chegada ao centro de Braga. À saída do pavilhão, rodar o punho do acelerador foi o primeiro ato de libertação. O vento na cara funcionou como o prelúdio da água tépida que, minutos depois, me acordaria o corpo em casa. Um circuito de desinfeção física e mental. De novo na estrada, com o tempo suspenso e o céu de feição, mergulhei no pavé empedrado. A vibração irregular das rodas no chão da cidade tem essa virtude mecânica: agita o interior, peneira a alma, filtra o que é excesso. À minha frente, o...

Crónica de um jardim escondido

30 maio 2026
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Há um compasso de espera que só se encontra quando nos afastamos meia dezena de minutos do pulsar do asfalto urbano. Não é uma questão de distância geográfica; é uma mudança de rotação. Ela tem este dom invulgar: o de domesticar o verde, de saber exatamente onde a sombra deve deitar-se e que flor merece o protagonismo da estação. O seu trabalho a tempo parcial como jardineira é, para mim, o passaporte gratuito para um país bucólico que teima em resistir algures na periferia de Braga. Ela sabe, com a intuição fina de quem me conhece as manias, que o meu pretexto para ir ao seu encontro é apenas a moldura de algo maior. A viagem de ida constrói-se na antecipação. O vento morno de fim de tarde bate na viseira aberta e traz o cheiro a terra batida e a erva cortada. Quando desligo o motor da Vision, o silêncio não é vazio — é preenchido pelo cântico desordenado de pássaros que parecem genuinamente felizes e pelo sussurro das árvores velhas. Estaciono a scooter num pátio de lajes de cimento...

O homem que insuflava os braços

26 maio 2026
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A saída da livraria fazia-se naquela atmosfera suspensa e descomprometida que só as manhãs de sábado sabem oferecer. O ar trazia ainda o frescor limpo do início do dia e os livros acrescentavam um peso bom, reconfortante. Em frente a mim, a Vision permanecia estacionada, o seu vermelho vivo a ensaiar um diálogo cromático imprevisto com a fachada do Palácio do Raio. Dei dois passos, movi-a uns metros para o centro do cenário e decidi simplesmente demorar-me ali, a olhar. O Palácio do Raio é uma daquelas excentricidades que provam que Braga já teve mais tempo para a beleza. Erguido em meados do século XVIII, a mando do opulento comerciante João Duarte de Faria, carrega o traço genial de André Soares, o mestre que moldou o barroco e o rococó na cidade. Olhar para aquela fachada é ler uma partitura esculpida em granito: as janelas recortadas com um vigor quase teatral, as volutas que parecem mover-se sob o céu azul e, claro, o azul profundo dos azulejos oitocentistas que revestem a estrutu...

O ruído das ideias paradas

22 maio 2026
Há um silêncio muito particular que se instala entre quatro paredes quando a cidade continua a mover-se lá fora. Um silêncio que cheira a papel limpo, a febre ligeira e ao isolamento imposto por um veredicto clínico colhido à pressa na ponta de um cotonete gigante. Diagnóstico fechado: amigdalite viral. O corpo estaciona, mas a mente, essa, recusa-se a desligar a ignição. Da janela do quarto, o olhar viaja vertical até à garagem, contornando a distância para pousar na silhueta estática da Honda Vision. Não preciso de lhe tocar para saber como pulsa. Há um fenómeno de memória muscular que nos devolve o asfalto sem que precisemos de sair do sítio: fecho os olhos e oiço o ronco monocilindrico, sinto a aragem quente da tarde a cortar a monotonia do rosto, a moldar a rota pelas artérias de Braga. É uma viagem fantasma, mas perfeitamente real. A reclusão, contudo, tem as suas próprias leis de compensação. O tempo que a doença rouba à estrada é devolvido, com juros de serenidade, à mesa de tr...

A scooter no dia-a-dia japonês

20 maio 2026
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Há muitas formas de conhecer o Japão. Pode-se admirar os templos e os santuários, pode-se fitar os neons das grandes cidades, pode-se apreciar os comboios que chegam com a sua pontualidade sobre-humana. Mas, se quisermos perceber o país como ele realmente funciona – no seu ritmo mais humano – talvez seja melhor descer um pouco a escala. Sair dos locais turísticos. Descer dos arranha-céus e aproximarmo-nos do chão. Ou melhor: da estrada. Especialmente desde que me mudei da cidade para uma zona mais calma, longe da grande Tóquio ou de grandes centros urbanos, comecei a reparar na presença constante de pequenas scooters , como a Honda Dio¹. Discretas, mas absolutamente omnipresentes. Não chamam a atenção, não fazem questão de impressionar – e talvez por isso digam tanto sobre o Japão. No Japão, a scooter é, acima de tudo, uma ferramenta. Um objeto funcional, pensado para encaixar na vida quotidiana com o mínimo de fricção possível. Vê-se estas scooters estacionadas em frente a casas peq...

日本の日常にあるスクーター

19 maio 2026
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日本を知る方法はたくさんあります。 寺院や神社を巡ることもできますし、大都市のネオンを眺めることもできます。超人並みの正確さで到着する電車に感心することもできるでしょう。でも、もし日本という国が本当にどんなリズムで動いているのか、もっと人間らしい日常のテンポを知りたいなら、少し視点を下げてみるのもいいかもしれません。観光地から離れてみる。高層ビルから降りて、もっと地面の近くへ。あるいは、もっと言えば、道路へ。 私自身が都会から離れ、東京や大きな都市圏から少し距離のある静かな地域へ引っ越してから、小さなスクーター、たとえばホンダ・ディオのような存在をよく見かけるようになりました。目立たない。でも、驚くほどどこにでもいる。人の視線を集めるわけでもなく、自分を主張するわけでもない。でも、だからこそ日本という国をよく表している気がします。 日本のスクーターは、何よりもまず「道具」です。日常生活に自然と溶け込み、できるだけ無駄なく使えるように考えられた実用的な存在です。小さな家の前、自転車の隣に停められている姿を見かけます。前かごが付いていることも多いですが、それはおしゃれのためではなく、実用性のため。地域の小さなお店の前で、ちょっとした移動を終えたばかりの温かいエンジンを残して停まっていることもあります。乗っているのは学生だったり、会社員だったり、高齢者だったり。特定の誰かのものではなく、日常そのものに属している乗り物です。 スクーターとの関わり方には、どこかとても日本らしさがあります。使い方、手入れの仕方、生活への溶け込み方。そのどれにも、日本らしい感覚があるように思えます。 手入れが行き届いていないスクーターはあまり見かけません。古いモデルであっても、ちゃんと実用品としての役割と存在感を保っています。目立つことがあまり好まれないこの国では、大切なのは見せびらかすことではありません。持っているものを大切にすること。そして、自分が占める空間を尊重すること。そうした価値観が、そこには表れているように感じます。 そして、スクーターが教えてくれるもうひとつ面白いことがあります。 それは、日本の移動のあり方です。 公共交通機関のイメージが強い日本ですが、実際には目に見えにくい「地域の日常移動」の層があります。 近所へのちょっとした移動。毎日の買い物。スーパーへの往復。保育園への送り...

O aroma das horas vazias

18 maio 2026
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Há manhãs em que a cidade não é mais do que um cenário em tons de cinza e branco, à espera que alguém lhe sopre o primeiro sinal de vida. O pretexto era mundano, quase urgente: a escassez de café em casa ameaçava o desassossego dos dias. Mas, na verdade, o que me move ao início de um fim de semana é a cadência delicada dos rituais. Partilhar o pequeno-almoço com a minha mulher é um dos meus favoritos. Ela tem o sábado povoado de clientes; eu tenho o tempo a meu favor. Despedimo-nos na penumbra cúmplice de uma pastelaria matinal e, a partir dali, a cidade passa a ser um caderno em branco. Coloco a Vision em andamento. No painel, o mostrador do combustível repousa numa barra de tranquilidade. O céu, de um azul lavado e sem mácula, estende-se sobre Braga como uma tela geométrica. O motor canta o seu sussurro mecânico habitual e a estrada, despida de trânsito, convida a uma lentidão quase cinematográfica. Descubro, com os anos, uma regra inversamente proporcional: quanto mais vazia está a ...

O despertar dos sensores

16 maio 2026
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O sinal sonoro que dita o fim do expediente carrega consigo uma ironia pacífica: é o som que encerra o dever e inaugura uma realidade realmente livre. Depois de horas a fio em que o trabalho duro nos caleja os sentidos até quase os anestesiar, a transição para a liberdade exige um tempo próprio de desaceleração. É um processo lento. De capacete já colocado e uma das luvas calçada, cumpro o último ritual mecânico: a pele do polegar direito toca no sensor do relógio de ponto, libertando a mão que falta para calçar a outra luva. Dou corda à Vision e, sobre o banco, começo finalmente a acordar. O asfalto inicial, com as suas pequenas imperfeições, devolve-me o tato. Contorno a rotunda na periferia da cidade com a leveza de quem se deixa levar num carrossel de infância e cruzo a linha férrea com aquele desejo antigo, quase suspenso, de ver um comboio a passar. Logo adiante, o pisca-pisca anuncia a mudança de ritmo. Desço uma rua estreita, pavimentada num granito velho e gasto pelo tempo, po...

O mito e o metal: o que cabe entre dois pneus?

9 maio 2026
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Há uma certa ditadura na estética. Quando se fala em cidades, em boémia urbana ou em slow reading sobre duas rodas, o mundo aponta quase por reflexo para as curvas de metal prensado vindas de Itália. A Vespa deixou de ser um veículo para se tornar um adjetivo. Mas a pergunta que me assalta, enquanto sinto a vibração discreta da minha Honda Vision nas ruas de Braga, é mais profunda: terá a Vespa o monopólio da poesia? A Vespa evoca um estilo de vida porque o cinema e a publicidade assim o ditaram. É uma beleza que nos é imposta de fora para dentro. Mas existe uma outra forma de evocação — aquela que nasce do asfalto, da fiabilidade e da invisibilidade. A minha Honda não é italiana, é japonesa. Não tem o peso do Dolce Vita , mas tem a leveza do modernismo funcional. Se a Vespa é uma ópera num teatro antigo, a Vision é um solo de jazz num clube discreto: não grita por atenção, mas transforma o ambiente de quem sabe ouvir. Qualquer scooter pode evocar o que uma Vespa evoca? No papel, tal...

O sul que corre para norte

3 maio 2026
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Há certas tardes em que Braga se veste de uma luz de papel de seda, e a minha Honda Vision parece deslizar por um cenário que não é apenas asfalto, mas uma sequência de fotogramas de uma cidade que respira entre o betão e o sonho. Seguia pela variante sul, no ritmo de quem não tem pressa porque o caminho é o próprio destino, quando fui abruptamente interpelado. Ali, num outdoor de saída para Nogueira, o contraste era absoluto: a rudeza da estrutura metálica versus a elegância de um maestro que, de batuta em riste, parecia querer reger o trânsito da cidade. O cartaz anunciava a vinda da Orquestra do Algarve ao Theatro Circo. Sorri por baixo do capacete. Há dois meses que o meu exemplar desta “edição” de maio está reservado. Tratei de assegurar um camarote inteiro; desta vez, não seremos apenas dois. Vou levar comigo quem nunca sentiu o peso do silêncio de uma sala de espetáculos antes da primeira nota. O Algarve sobe ao Minho para nos falar da Amazónia. É uma inusitada conjunção geográ...

A lentidão necessária

1 maio 2026
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Ainda meio submerso no torpor da manhã, ouvi a voz da minha mulher a atravessar o nevoeiro do despertar: era preciso transportar a tijoleira para a nossa casa de campo. Ela e o meu enteado seguiriam na carrinha de dois lugares; eu iria de mota. Levei a mão ao braço dela, num gesto de verificação, para confirmar se aquilo não era apenas uma alucinação hipnopômpica. Mas não — era mesmo um chamamento para a estrada. A ideia de aproveitar um dia nublado para voltar à Nacional 201 arrancou-me do ninho com uma prontidão que só a promessa de liberdade consegue convocar. Em minutos estava pronto, a Vision já alinhada com a Berlingo que levaria o peso do material, enquanto eu levaria o peso leve da viagem. Gilles Lipovetsky, na sua última entrevista à revista Ler , lembra-nos que a felicidade duradoura exige tempo — e que o tempo, para existir, precisa de ritmo lento. A sociedade, dizia ele, afoga-se na imediatez das pantalhas, incapaz de sustentar a atenção que uma conversa, um livro ou uma pa...

O peso da marcha atrás

29 abril 2026
Por estes dias estacionei a mota em frente a uma livraria no centro de Braga. A ideia de entrar numa livraria é, em princípio, procurar livros. Mas eu nunca consegui domesticar este gosto antigo pelo grafismo, pelas revistas, por essa superfície impressa que parece sempre guardar um segredo. Talvez devesse procurar uma revistaria, mas não conheço nenhuma. Volto então à livraria, como quem regressa a um hábito que não se questiona. Procuro uma secção de revistas, mas percebo rapidamente que isso existe apenas na minha cabeça, como certas ruas que julgamos lembrar e afinal nunca percorremos. Já com dois livros na mão, prestes a virar-me para sair, vejo um empilhamento improvável: uma única revista repetida vinte vezes, como se alguém tivesse decidido que bastava aquela para representar todas as outras. Chama-se Ler . Uma ordem, quase um imperativo moral. A capa, bordô e mostarda, ilustrada por Pedro Vieira, prende-me antes de qualquer título. Peço um exemplar sem hesitar. Só já fora da l...

A liberdade tem um motor a dois tempos

25 abril 2026
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Houve um instante — breve, mas definitivo — em que o mapa de Portugal deixou de ser uma linha rígida e passou a ser um território de descoberta. Naquela quinta‑feira de abril, a liberdade não chegou apenas sobre lagartas de metal pesado; chegou também, mais ágil e ruidosa, montada em selins de cabedal e guiadores cromados. Enquanto as chaimites ocupavam o Terreiro do Paço com a solenidade da mudança, nas artérias secundárias da cidade desenhava‑se uma revolução mais íntima. Eram as Vespas, as Sachs e as Casal que faziam o sistema circulatório da esperança. Sem a censura a vigiar as esquinas, a mota deixava de ser o veículo do operário que regressava a casa em silêncio para se tornar mensageira de um país que acordava. A poética da mobilidade Há uma estética irrepetível naquelas fotografias a preto e branco de 1974: o contraste entre a rigidez das fardas e a fluidez dos civis que, empoleirados nas suas motorizadas, seguiam a coluna de Salgueiro Maia como quem segue uma respiração nova. ...

A evasão permitida e o rumor de uma nova estação

25 abril 2026
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Aos quarenta e dois anos, os dias já não se medem apenas em horas: medem-se em densidade. No meu caso, essa densidade tem o som metálico da fábrica, o cheiro ácido dos químicos e a precisão fria das máquinas que me acompanham há anos. É um trabalho honesto, disciplinado, mas que tem alimentado um rumor persistente — o rumor de que talvez exista, algures, uma estação mais luminosa à minha espera. Quando termina mais um turno, desses que moldam o corpo e a mente como se ambos fossem peças da mesma prensa industrial, encontro o meu pequeno rito de libertação. A minha scooter vermelha — simples e fiel — torna-se o meu corredor de fuga. Não me leva para longe, mas leva-me para onde importa: um pedaço de terra onde o tempo abranda e onde, finalmente, sou eu quem dita o ritmo. É ali, entre a rega do pomar e da horta, que o peso se desfaz. Há uma espécie de redenção no som da água a correr, um som que nenhuma máquina conseguirá imitar. Talvez os pássaros não saibam, nem o sol que desce devaga...

A sebe que cresceu para lá do telhado

21 abril 2026
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No dia anterior tínhamos estado no Theatro Circo, rendidos à voz de Elisabete Matos e ao piano de Maciej Pikulski. Talvez tenha sido a naturalidade dela — não apenas a que se ouve, mas a que vem de ter nascido nas Caldas das Taipas — que nos empurrou, no dia seguinte, para uma viagem de regresso. Fomos de mota às Taipas por causa dessa mesma naturalidade, como se a terra dela nos chamasse também a nós. Seguimos pela tarde, a minha mulher à pendura, cada vez mais habituada ao balanço das duas rodas, e ainda assim surpreendendo-me por ter sido ela a sugerir a viagem. Ao deixarmos Braga pela Morreira, a N101 recebeu-nos com a sombra cerrada do arvoredo, um corredor vegetal onde o sol só entrava por frestas. A descida prolongada parecia preparar-nos para o reencontro. À passagem por Sande (São Martinho), o cheiro a lenha de uma serração devolveu-me memórias que julgava adormecidas. Já no centro das Taipas, as esplanadas cheias confirmavam que o sol tinha feito a sua parte. A viagem, feita ...

109 que sabe a 1000: uma crónica de fumo e alheiras

18 abril 2026
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A pergunta tornou-se um clássico, quase um provérbio de beira de estrada: “E a sua mota chega a Vieira do Minho?” Não é bem pergunta — é mais um sorriso enviesado, uma sobrancelha levantada, uma espécie de paternalismo motorizado. Há quem ache que uma Vision é uma 50 com ilusões ou uma 125 envergonhada. Mas é uma 109. Uma cilindrada imperfeita, assimétrica, que me diverte pela própria teimosia numérica. E foi com essa imperfeição que parti para uma manhã que prometia lavar-me o olhar. O asfalto fresco ainda guardava o frio da noite, mas o sol já insinuava uma claridade que poucos se dão ao trabalho de colher. Nas vias largas, a roupa batia-me no corpo como quem me acorda com palmadas leves, e o vento, ainda frio, entrava pelas costuras. Braga ficava para trás e, com ela, a tensão da semana. A temperatura oscilava entre sombras húmidas e golpes de luz. A N103 abria-se como um corredor de fuga, e ao longe o Gerês erguia-se com a serenidade de quem observa tudo sem pressa. Poderia abrand...

Tão longe, tão perto: um trilho de resistência

16 abril 2026
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Faço-me à estrada com a noção de que este ampliar da luz solar é um extra diário de vida devolvido depois do inverno nos ter apertado o horizonte. A Vision, ainda marcada pela chuva dos últimos dias, avança pelo trânsito caótico da cidade. Há quase uma insolência neste desfrutar da brisa do fim de tarde sob um céu limpo. Vejo-os — os automobilistas — irritados, conformados, presos nas filas intermináveis. Lá passa uma scooter . Depois outra. E eu, mais a Vision. A solução está-lhes diante dos olhos, mas insistem na redoma de aço, cada um sozinho, como se a solidão motorizada fosse um direito adquirido — e inquestionável. Talvez a irritabilidade no asfalto seja apenas mais uma normalidade portuguesa: “tem de ser” . A polícia, também ela enredada no trânsito da Rua do Matadouro, vê-me passar. A pressa, para eles, é um conceito relativo enquanto o turno ainda dura. Já na Rua Dom Afonso Henriques, sou obrigado a abrandar. À minha frente, uma altíssima cilindrada, cujo condutor saboreava o ...

A artéria que envelheceu um século num ano

15 abril 2026
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Dizem que o tempo é relativo, mas na Avenida do Covedêlo com a Rua Sra. da Graça, ele corre a uma velocidade assustadora. Há apenas doze meses, este asfalto era uma promessa de modernidade, uma linha de futuro. Um tapete negro, liso, que ligava Celeirós à Aveleda, na periferia sul de Braga. Hoje, ao olhar para o chão junto ao parque industrial, a sensação é a de quem observa as ruínas de uma civilização antiga que tentou, sem sucesso, domesticar o subsolo. Como é que uma obra com garantia de execução se transforma, em tão pouco tempo, numa colcha de retalhos de tão má qualidade? A Vision, com o seu comportamento ágil, foi desenhada para a cidade, para serpentear no trânsito. Mas aqui, o serpentear é de sobrevivência. O chão por onde passamos não é manutenção; é um testemunho da arquitetura do desenrasque . O que vemos na imagem não é uma estrada. É uma coleção de cicatrizes mal curadas. Onde devia haver continuidade asfáltica, há agora uma guerra de materiais. O uso indevido de cimento...

O brio dos eletricistas e a cegueira dos zombies

13 abril 2026
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O pequeno-almoço ainda ecoava na memória quando coloquei o motor da minha scooter a trabalhar. Não era uma viagem de necessidade, mas de verificação — um brio de inspetor que me levou a seguir pelo asfalto fresco da manhã com a prontidão de quem sabe que há uma história à espera. Fui ver o que ninguém viu. Recordo o cenário: um poste cego, um esqueleto metálico decapitado que servia apenas de cabide para promessas políticas e fita de isolamento desbotada. Foram dois anos de inércia municipal. Mas bastou um formulário digital, um SMS e seis dias de expediente para que a E‑REDES fizesse o que a burocracia local esqueceu no fundo de uma gaveta. Cheguei ao local e encontrei não só o poste reparado, mas rejuvenescido. A luminária antiga, derretida e inútil, foi substituída por uma moderna, em LED . E não ficaram por aí: os outros dois candeeiros da mesma linha receberam o mesmo tratamento, como se a rua tivesse finalmente recuperado a coerência que lhe faltava. Um exemplo de brio técnico...

O músculo da abstração

12 abril 2026
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Sempre li a partir de redutos. A leitura, para mim, era um ritual que exigia a liturgia do quarto, o silêncio absoluto das paredes conhecidas ou, no limite da audácia, o isolamento da varanda. Fora desse perímetro de conforto, as palavras pareciam perder o fôlego, asfixiadas pelo ruído do mundo, pela luz errada ou pela conversa alheia que teimava em infiltrar-se entre as linhas. Mas a vida, tal como a estrada, impõe as suas curvas. E o "culpado" desta vez tem nome: José da Xã . Des(a)fiando Contos tornou-se a exceção que veio para ditar uma nova regra. Com as suas dimensões gentis, tão convidativas ao transporte, o livro deixou de ser um objeto de prateleira para passar a ser a "app" de entretenimento que instalei debaixo do banco da minha Honda Vision — sempre pronta a abrir. É o meu sistema operativo para as esperas e para as pausas itinerantes. Tenho treinado o músculo da abstração. Se antes a luz me distraía, agora procuro o jazz de fundo para domar o caos. Com...