O encontro primitivo
4 junho 2026
O anúncio surgiu no ecrã por mero acaso — um daqueles raros momentos em que o algoritmo serve uma utilidade fugaz. A notícia de que a livraria Centésima Página acolhia a apresentação do segundo volume da revista Primitiva ecoou em mim com a urgência de uma sirene de ataque aéreo. Não podia perder. O relógio, porém, impunha uma disciplina militar: trinta minutos exatos entre o largar das ferramentas na fábrica, a fuga para casa para um banho rápido que me devolvesse a dignidade pública, e a chegada ao centro de Braga. À saída do pavilhão, rodar o punho do acelerador foi o primeiro ato de libertação. O vento na cara funcionou como o prelúdio da água tépida que, minutos depois, me acordaria o corpo em casa. Um circuito de desinfeção física e mental. De novo na estrada, com o tempo suspenso e o céu de feição, mergulhei no pavé empedrado. A vibração irregular das rodas no chão da cidade tem essa virtude mecânica: agita o interior, peneira a alma, filtra o que é excesso. À minha frente, o...