O ritmo invisível do tempo contado

12 julho 2026

O despertador é um intruso mecânico. Abro os olhos, a luz de julho já se infiltra pelas frinchas da persiana, e sinto o corpo pesado, como se a gravidade de Braga se tivesse concentrado toda na minha cama. Há um cansaço físico que se apodera de nós sem pedir licença, uma quietude forçada que o corpo exige e que a mente tenta contrariar. Deixo-me ficar mais um minuto. Depois, num golpe de teatro doméstico, apanho a preguiça desprevenida e ergo-me antes que os músculos comecem a reclamar.

Na cozinha, o ritual do café é o primeiro compasso do dia. O vapor que sobe da caneca funciona como uma promessa: lá fora, a estrada espera-me. A Honda Vision 110, silenciosa à entrada, é o convite perfeito para aquela cadência matinal, lenta e terapêutica, que costuma salvar os meus fins de semana.

Mas o sábado trai as expectativas. O que devia ser um passeio contemplativo transforma-se, de repente, num tabuleiro de tarefas pendentes. Quando dou por mim, o relógio já assumiu o comando.

Fotografia urbana tirada ao nível do solo. No primeiro plano, encontra-se estacionada uma scooter Honda Vision 110 vermelha, em cima do paralelo de granito. Do lado direito da mota, ergue-se um totem cinzento e azul que sustenta um grande mapa ilustrado do centro histórico de Braga. O fundo mostra fachadas de edifícios antigos recuperados, pintados de azul vibrante e ocre, com janelas de guilhotina brancas e varandins de ferro forjado.

O Largo da Senhora-a-Branca acorda num rebuliço elétrico, uma agitação que contraria o meu desejo de silêncio. Estaciono a Vision mesmo ao lado do mapa da cidade, como quem procura um norte que já conhece de cor. O plano era simples: recolher o meu café de São Tomé e fugir para a periferia sossegada. Não é que o movimento da cidade me assuste; é apenas a necessidade urgente de contraste. Para valorizar o movimento urbano, preciso da solitude do asfalto limpo. Ainda assim, a pequena scooter move-se com uma elegância felina entre o trânsito inconsciente, estaciona sem esforço e devolve-me a tolerância que a pressa dos outros me tenta roubar.

Antes de procurar a estrada aberta, há uma paragem burocrática no serviço oficial. Uma mensagem na caixa de correio lembrou-me de que a Vision já conta com quase 4 mil quilómetros no mostrador — a distância exata daqui a Kiev, feita em pequenos sobressaltos urbanos, em idas e vindas quotidianas. Olho para esse número com uma ponta de melancolia. Gostava que fossem mais. Gostava de ter rasgado mais horizontes, mas a vida tem outras margens. Cuidar do meu enteado, com as suas geometrias e limitações próprias, exige que eu abdique, de bom grado, do vento na cara. Há uma beleza invisível no dever que as redes sociais nunca conseguirão catalogar.

Uma fotografia aérea e panorâmica do Jardim da Senhora-a-Branca, em Braga. O plano é dominado por um jardim geométrico formal, com canteiros densos de flores amarelas e cor-de-laranja vibrantes, caminhos em calçada portuguesa, sebes verdes e árvores copadas. Ao centro, ergue-se um obelisco de pedra sobre uma base em degraus. Ao redor do jardim, estende-se o tecido urbano de Braga, com prédios de várias épocas e cores, uma igreja ao longe e montanhas no horizonte sob um céu nublado.

Mesmo em dias de tempo contado, a cidade tem uma forma magnética de nos prender. Olho o Jardim da Senhora-a-Branca de cima, e a perspetiva aérea revela a simetria perfeita dos canteiros floridos, os caminhos que parecem desenhados para uma sessão fotográfica de outra época. Há história, design e alma nesta arquitetura charmosa, neste movimento pedonal rítmico que flui sob o arvoredo. A cidade vista de cima parece pacificada. Lá em baixo, a mota espera-me, recortada contra o casario antigo.

O meio-dia aproxima-se e o calor de julho começa a assentar no pavimento. Contorno a pulsação do centro histórico e deixo-me guiar até à soleira do Campo das Hortas.

Fotografia de rua tirada numa zona pedonal pavimentada com calçada portuguesa e lajes de pedra. No primeiro plano, ligeiramente à direita, está estacionada a scooter Honda Vision 110 vermelha, perto do tronco de uma pequena árvore plantada num canteiro urbano. Ao fundo, no centro, o imponente Arco da Porta Nova em granito barroco marca a entrada para o centro histórico. Fachadas de edifícios antigos de três e quatro andares, em tons de ocre e branco, azulejaria azul, com varandas e janelas, ladeiam a rua. Pessoas caminham descontraidamente e há esplanadas com chapéus de sol.

Estaciono junto de uma árvore discreta, com o Arco da Porta Nova a erguer-se ao fundo como um portal de pedra para o passado. As esplanadas estão cheias, os turistas cruzam as passadeiras com a lentidão mecânica das férias. Percebo então, enquanto olho para o perfil esguio e vermelho da Vision sobre o paralelo granítico, que o problema nunca é a cidade. O problema é a ditadura das horas, a rotina que se infiltra mesmo quando tentamos ser livres.

Fica a promessa de uma vingança poética tão breve quanto possível. Com a segunda revisão marcada e o verão a meio, sei que haverá dias mais folgados. Dias em que o relógio será apenas um acessório, e não o dono do caminho.

PÁGINAS MAIS FOLHEADAS

O ar que se bebe nas entrelinhas

40 graus à sombra do jazz

O encontro primitivo