O ritmo invisível do tempo contado
O despertador é um intruso mecânico. Abro os olhos, a luz de julho já se infiltra pelas frinchas da persiana, e sinto o corpo pesado, como se a gravidade de Braga se tivesse concentrado toda na minha cama. Há um cansaço físico que se apodera de nós sem pedir licença, uma quietude forçada que o corpo exige e que a mente tenta contrariar. Deixo-me ficar mais um minuto. Depois, num golpe de teatro doméstico, apanho a preguiça desprevenida e ergo-me antes que os músculos comecem a reclamar.
Na cozinha, o ritual do café é o primeiro compasso do dia. O vapor que sobe da caneca funciona como uma promessa: lá fora, a estrada espera-me. A Honda Vision 110, silenciosa à entrada, é o convite perfeito para aquela cadência matinal, lenta e terapêutica, que costuma salvar os meus fins de semana.
Mas o sábado trai as expectativas. O que devia ser um passeio contemplativo transforma-se, de repente, num tabuleiro de tarefas pendentes. Quando dou por mim, o relógio já assumiu o comando.

O Largo da Senhora-a-Branca acorda num rebuliço elétrico, uma agitação que contraria o meu desejo de silêncio. Estaciono a Vision mesmo ao lado do mapa da cidade, como quem procura um norte que já conhece de cor. O plano era simples: recolher o meu café de São Tomé e fugir para a periferia sossegada. Não é que o movimento da cidade me assuste; é apenas a necessidade urgente de contraste. Para valorizar o movimento urbano, preciso da solitude do asfalto limpo. Ainda assim, a pequena scooter move-se com uma elegância felina entre o trânsito inconsciente, estaciona sem esforço e devolve-me a tolerância que a pressa dos outros me tenta roubar.
Antes de procurar a estrada aberta, há uma paragem burocrática no serviço oficial. Uma mensagem na caixa de correio lembrou-me de que a Vision já conta com quase 4 mil quilómetros no mostrador — a distância exata daqui a Kiev, feita em pequenos sobressaltos urbanos, em idas e vindas quotidianas. Olho para esse número com uma ponta de melancolia. Gostava que fossem mais. Gostava de ter rasgado mais horizontes, mas a vida tem outras margens. Cuidar do meu enteado, com as suas geometrias e limitações próprias, exige que eu abdique, de bom grado, do vento na cara. Há uma beleza invisível no dever que as redes sociais nunca conseguirão catalogar.

Mesmo em dias de tempo contado, a cidade tem uma forma magnética de nos prender. Olho o Jardim da Senhora-a-Branca de cima, e a perspetiva aérea revela a simetria perfeita dos canteiros floridos, os caminhos que parecem desenhados para uma sessão fotográfica de outra época. Há história, design e alma nesta arquitetura charmosa, neste movimento pedonal rítmico que flui sob o arvoredo. A cidade vista de cima parece pacificada. Lá em baixo, a mota espera-me, recortada contra o casario antigo.
O meio-dia aproxima-se e o calor de julho começa a assentar no pavimento. Contorno a pulsação do centro histórico e deixo-me guiar até à soleira do Campo das Hortas.

Estaciono junto de uma árvore discreta, com o Arco da Porta Nova a erguer-se ao fundo como um portal de pedra para o passado. As esplanadas estão cheias, os turistas cruzam as passadeiras com a lentidão mecânica das férias. Percebo então, enquanto olho para o perfil esguio e vermelho da Vision sobre o paralelo granítico, que o problema nunca é a cidade. O problema é a ditadura das horas, a rotina que se infiltra mesmo quando tentamos ser livres.
Fica a promessa de uma vingança poética tão breve quanto possível. Com a segunda revisão marcada e o verão a meio, sei que haverá dias mais folgados. Dias em que o relógio será apenas um acessório, e não o dono do caminho.