40 graus à sombra do jazz

4 julho 2026
Uma scooter Honda Vision 110 vermelha metalizada estacionada em plano médio sobre o pavimento da zona pedonal da Avenida da Liberdade, em Braga. Em fundo, do lado esquerdo, surge a fachada de traço clássico do antigo edifício dos CTT, atual Liberdade Street Fashion, e, mais atrás, o icónico edifício cor-de-rosa do Theatro Circo sob a luz suave do fim de tarde.

Há semanas que não escrevia, pela simples razão de que as saídas de scooter escassearam, e são elas que alimentam a narrativa deste espaço. Quando eu achava que ia intensificar as minhas saídas pós‑laborais de mota, aconteceu o contrário: o eixo narrativo deste espaço — a minha Honda Vision 110 — ficou à espera, como quem aguarda o momento certo para voltar à estrada.

Com a canícula instalada em Braga, entrar num carro tornou-se um suplício. Os interiores transformam-se em estufas químicas: misturas de plástico quente, perfumes de tablier e atmosferas que lembram fornos industriais. A mota, faça chuva ou faça calor infernal, continua a ser o meu refúgio. Em andamento, o calor deixa de ser um adversário e passa a ser apenas mais um elemento da paisagem.

Braga vive Julho é de Jazz, mas vive-o a 40 graus. E eu, que já ouvi tantas vezes o preconceito de que motores com arrefecimento a ar “não aguentam o calor”, decidi testar o pequeno motor de 110cc numa prova de esforço urbano: dois passageiros, temperatura desértica e o charme de chegar ao Theatro Circo de scooter para um concerto.

A Paula já andava na cidade, por isso combinámos jantar antes. Preparei o segundo capacete, enfiei o meu — que parecia ter sido deixado ao sol desde o século XIX — e parti. Tudo estava quente: o banco, o guiador, o ar à sombra. Mas em andamento, o calor perde definição. Deixa de ser sufocante e torna-se tépido, quase neutro, como se deixasse de fazer parte da experiência.

Na descida de Ferreiros, bolsas de ar fresco surgiam como pequenas epifanias. Duravam segundos, mas eram suficientes para acordar os sentidos adormecidos. Chegado ao restaurante, estacionei na sombra de uma árvore — esse luxo urbano tantas vezes ignorado. A esplanada, porém, estava a escaldar. O interior, que costuma ser demasiado frio, estava morno. O ar condicionado desistira. Não havia gelo. Até os gelados sofriam. Era um restaurante em modo colapso térmico.

Saímos depressa. A carrinha da Paula ficou ao sol; a mota, à sombra, levar-nos-ia pela primeira vez nela a um concerto. Em andamento, a minha mulher soltou um “até nem se está mal”, rendida ao alívio térmico que o vento em movimento nos oferecia. E era verdade. Alheia a essa nossa gestão de sobrevivência e à lotação a bordo, a Vision comportava-se como se estivesse só comigo, totalmente indiferente ao calor.

Descemos a Rua do Raio e fizemos uma pausa na Avenida da Liberdade. Depois, procurámos frescura no estacionamento subterrâneo — um bunker climatizado onde finalmente respirámos. Lá em cima, a cidade continuava a ferver. Os bancos de rua, em pedra, guardavam o calor do dia como cofres avarentos. Relembraram-me que a madeira, sempre mais sensata na sua baixa condutibilidade, teria sido a melhor escolha para a anatomia urbana.

Mesmo ali na rua, em frente à porta principal do Theatro Circo, André Azevedo tocava e dava-nos a brisa que faltava. Quando entrámos, o edifício era um oásis. Fresco, silencioso, acolhedor. O concerto, porém, não era para nós, nem pareceu ser para a maioria. O Omniae Large Ensemble, experimental e abstrato, exigia uma ginástica intelectual que não ajuda a introduzir o jazz na rotina das pessoas logo de rompante. Vi desistências a meio do espetáculo — coisa rara por ali —, num reflexo claro dessa ousadia programática que chocou contra um público desalinhado com o impacto abstrato. A Paula já me tinha avisado que as sextas-feiras, após dias longos de trabalho, não são amigas de aventuras auditivas; e a verdade é que o nosso próprio cansaço também não ajudou a digerir uma musicalidade que nos soava aparentemente desordenada.

À saída, recuperámos o capacete dela na bilheteira e enfrentámos novamente a atmosfera seca. No parque subterrâneo, a mota estava mais fresca do que nós. A cancela hesitou em abrir, como se nos pedisse para ficar ali, no único lugar sensato da cidade. Mas ao emergirmos na Rua de São Lázaro, o ar estava perfeito para o movimento.

A viagem de regresso foi o melhor momento da noite. Luzes, árvores, frescura e a cadência do caminho. Uma bênção simples, urbana, inesperada. Numa noite em que quase tudo falhou, o que venceu foi o arrefecimento a ar — tanto o do motor, como o nosso.

PÁGINAS MAIS FOLHEADAS

O ar que se bebe nas entrelinhas

O encontro primitivo

O homem que insuflava os braços