O ar que se bebe nas entrelinhas

De manhã, o ar já não se respira; pesa. O sol matinal, com uma pressa desmedida de agosto em pleno junho, instala-se nas ruas de Braga como um manto invisível e sufocante. Nestes dias de canícula, a cidade parece desacelerar, rendida ao torpor do calor, e a única trégua possível é aquela que se conquista em movimento.
Montado na Honda Vision, o vento do andamento é um pequeno milagre diário. Não é propriamente fresco, mas corta a estagnação. Transforma o trajeto mais banal numa travessia contemplativa, um espaço de tempo suspenso onde os pensamentos ganham a liberdade que o asfalto quente tenta roubar. É a bordo desta scooter que tenho desenhado o mapa de um ano atípico.
2026 instalou-se em mim como uma primavera cultural tardia, mas avassaladora. Nunca li tanto. Nunca escrevi tanto. Os meus dias têm sido uma coreografia constante entre pontos de recolha de encomendas — que abastecem uma biblioteca pessoal agora reorganizada, com uma estante nova a estrear — e as salas de teatro e de concertos. Há uma urgência bonita em abstrair-me das tristezas do mundo através da arte, um crescendo de atividade que me deixa preenchido, genuinamente feliz.
É uma boémia pacífica, esta. A de quem viaja sem sair do lugar, guiado pelas páginas que transporta na plataforma da mota.
A meio do caminho, entre muros e paredes graníticas que guardam o segredo da frescura de outros tempos, a Vision repousa por momentos. Olho para ela e permito-me duvidar. Em cima destas duas rodas, os pensamentos oscilam: valerá a pena o esforço? Estarei a idealizar um impossível? O plano de erguer uma revista independente, um objeto editorial físico e de coleção, esbarra frequentemente na burocracia cinzenta e nos custos do arranque a zero. Pensar nisso queima mais do que o sol do meio-dia.
Mas depois, o motor arrefece e o bolso vibra. São e-mails de autores. Perguntas, textos, manifestações de puro entusiasmo de quem quer fazer parte deste manifesto impresso. Essa curiosidade é o verdadeiro combustível. Se a revista parecia uma miragem na estrada debaixo de calor, a vontade dos outros transforma-a em destino certo.
Sigo caminho em direção ao jardim. Há um ritual exato que me espera: a mangueira na mão, o jato de água a bater na relva e o perfume ancestral da terra húmida que se solta dos vasos. Uma lufada de ar fresco para contrastar com a canícula da vida. Haveremos de conseguir. Monto-me na scooter, sinto o ar a ficar novamente tórrido e acelero em direção à sombra. O projeto está a andar.